terça-feira, 24 de agosto de 2010

A medida do peso: você é o que você come.

Você é o que você come, certo?
Certo...

     Um indivíduo que nutre em seu cardápio, hábitos alimentares saudáveis - pratos coloridos, variados, com pouca presença de gorduras saturadas, com frutas e bastante água - é, com certeza uma pessoa mais feliz, mais realizada....
     Com certeza se comporta melhor em reuniões do trabalho, trata melhor os pais, liga sempre pros amigos, é fluente em mais de uma língua, sabe diferenciar entre a boa e a má oportunidade, é mais sociável, mais gentil, mais inteligente...
     Esforça-se mais que os outros, é exímio contador de história aos filhos, tira as melhores notas e, claro, é mais magro, forte, esbelto... significativo.
     Não?
     ...é claro que não.
     Uma coisa não se relaciona com a outra - pelo menos não de forma direta e irrestrita. Alimentar-se bem, tendo como acompanhamento uma atividade física, ajuda a pessoa a se sentir bem consigo mesma e assim, sentindo-se mais disposta, seguir em frente e encarar as dificuldades.
    A relação gordura X capacidade é completamente absurda, equivocada e incoerente.
   O século XX trouxe com ele atribuições de magreza e esteticidade que já se arraigaram naquilo que a gente acha que é normal. A tendência de achar que a beleza estética é , de perto, o caminho para a felicidade, nos afasta d"O essencial é invisível aos olhos", de Exupérry.
    E foi assim que sairam fotos de dois eventos que tangem nossa cultura atual. Ambas foram marcadas por ícones ou da moda ou do mundo dos famosos: O Peão de Boiadeiros, em Barretos, e o Miss Universo 2010, em Las Vegas.
    O que intriga, na verdade, é a forma como  repercussão dos fatos ocorre. No afã de dar a notícia, os repórteres responsáveis pela matéria de Mariah, veiculada no site babado.com , cometem gafes - para ser simpática - , ou melhor, atentados às nossas inteligências e conceitos de felicidade.
     Abre aspas: "Mariah Carey se apresentou, neste sábado (21), para milhares de fãs da world music e do sertanejo, em Barretos.  A cidade, localizada no interior de São Paulo, recebeu a "diva" americana no Parque do Peão. A cantora foi levada ao palco por um de seus bailarinos. Neste momento nota-se seus quilinhos a mais. (...) Na troca de figurinos, Mariah esconde as curvas salientes com um casaco preto.(...) Braço da cantora acusa os quilos a mais. (...) O vestido preto marcava a cintura de Mariah e ganhava mais volume na parte de baixo" 

     Oi, quem se importa com os quilos a mais de Mariah se ela continua cantando e encantando as pessoas que gostam de sua música? Se boa ou má cantora, cabe a algum crítico musical avaliar, o aumento de peso da cantora não a deixa mais ou menos capaz.

...e essa sou eu, com 20 anos;1,62m de altura,
mais ou menos 55 kg, nascida em Teresina - PI
e futura jornalista formada na UnB.
Essa é a miss 2010, ela tem 22 anos,
1,74m de altura, nasceu em Guadalaraja
 no México e faz faculdade de Nutrição

 Tá vendo, inteligência, sensibilidade, atenção, capacidade não são parâmetros medidos pela beleza ou quantidade de gorduras!


sábado, 21 de agosto de 2010

Premiação Selos



A comunidade blogueira, para indicar aqueles que mais trabalham com afinco em seus filhotes virtuais, criou um sistema de troca de selos, onde cada um indica seus blogs preferidos. E eu recebi dois , Sunshine Awards e Prêmio Dados, da Fabi, amiga e companheira blogueira!
Agradeço, inclusive, pela paciencia em esperar pela postagem dos selos aqui depois de tanto tempo e parabenizá-la pelas palavras que ela escreve. Sou fã.
Mesmo.
E assim, recebo os selos e passo-os adiante aos blogs que admiro:

http://www.pessoalmentemirella.blogspot.com/
http://metendobico.blogspot.com/
http://viciadasem.blogspot.com/

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Inssinu no Brasiu è otimo!

                                              
     A edição 2.074 da revista Veja cuja capa sentencia: “O inssinu no Brasiu è otimo”, discorre a respeito de um tema que, por ser de ordem pública, teria por si mesmo larga abertura para questionamentos fundamentados, não fosse a falta de tato – já conhecida – do semanário mais lido do país.
     O mérito da questão de interesse social, no entanto, não se enveredou pelo caminho da sensatez ou da pormenorização de observações eficientes em relação ao ensino das crianças e adolescentes brasileiros.
     Levados a acreditar em uma massificação ideológica, os leitores da edição se depararam com frases como: “Muitos professores e seus compêndios enxergam o mundo de hoje como ele era no tempo dos tílburis. Com a justificativa de "incentivar a cidadania", incutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos”; ou ainda: “A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar privado e particular. É algo que os professores levam mais á sério do que o ensino das matérias em classe”.
     E finalmente: “Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, (...). Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade”.
     Paulo Freire foi o maior educador brasileiro e já é apontado como um dos maiores da humanidade. Sua obra mais conhecida – A Pedagogia do Oprimido – já vendeu mais de 450.000 exemplares e nos emoldura como agentes da história, acima da condição de objetos que os processos de opressão dos miseráveis tanto nos fazem crer.
     Com honra consolidada, Freire foi intenso construtor da formação cidadã brasileira, pensou e produziu o método de alfabetização de adultos que leva seu nome, não distinguiu credo, cor, etnia, sexo, classe social ou idade daqueles que defendeu com afinco e credibilidade; a edição da revista Veja do dia 20 de agosto de 2008 atribuiu-lhe ofensa e envergonhou-nos a todos como brasileiros.
     Ao fim da reportagem de 16 páginas, nenhum pedagogo foi entrevistado e duas aulas de educadores foram expostas de maneira imprudente e maliciosa. Dessa maneira, é explícita a tomada de posição da diretoria da revista que faz esforços para não se lembrar do código de ética que rege seu serviço e que de tão pendente à direita, torna-se manca opinião.
     No código de ética dos jornalistas brasileiros, encontramos:

Capítulo I - Do direito à informação:
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
     I - a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas;

Capítulo II – Da conduta profissional do jornalista:
Art. 6º É dever do jornalista:
     VIII - respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
      X - defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;

Capítulo III – Da responsabilidade profissional do jornalista:
Art. 12. O jornalista deve:
     I - ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;
     III - tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;

     Dessa forma, mais que distorcer as informações reportadas ao grande público, a revista Veja feriu artigos éticos do código jornalístico e, com base no inciso X, do artigo 6º, do capítulo II, do referido código, também desrespeitou os princípios legais e constitucionais do Estado brasileiro, vigentes, por exemplo, no Código Penal desde 1940.
     O capítulo V, do Título I, da Parte Especial do Código Penal Brasileiro se refere aos “Crimes Contra a Honra”. Neste capítulo, encontramos os artigos 138, 139 e 140 que tratam, respectivamente, dos crimes de Calúnia, Difamação e Injúria. Distingo-os:
     Calúnia apresenta-se como atribuição, a outrem, de responsabilidade falsa de ação tida como crime nos moldes do mesmo código; difamação é a atribuição de um ato ofensivo à reputação de outra pessoa e injúria consiste em imputar qualidade negativa e/ou ofensiva à dignidade ou decoro de alguém.

Código Penal - CP - DL-002.848-1940
Parte Especial
Título I – Dos Crimes Contra a Pessoa
Capítulo V – Dos Crimes Contra a Honra

Calúnia
Art. 138 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime:
Pena - detenção, de seis (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, a propaga ou divulga.
§ 2º - É punível a calúnia contra os mortos.

Difamação
Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.

Injúria
Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:
Pena - detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou multa.

Disposições Comuns
Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido:
III - na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria.

     Assim, notamos com clareza as mazelas cometidas pela revista Veja à honra e à memória de Paulo Reglus Neves Freire, morto a dois de maio de 1997, data, felizmente, posterior à má intencionada reportagem que entrou para o rol das piores e mais distorcidas apurações do semanário.
Transtornado com a capa,
Cazuza chegou a se hospitalizar.
[clique para ampliar]
Cadáver ensanguentado é capa da
Veja ao tratar do Eldorado dos
Carajás [clique para ampliar]

Dois meses antes de se tornar
presidente, a Veja elege FHC.
[clique para ampliar]
     Foram atingidos direitos éticos que deveriam encabeçar uma apuração justa e eficiente, mas, ao contrário do esperado de uma edição de tão grande circulação, o decoro e o dever foram esquecidos e o dano causado à memória e honra de Paulo Freire chamaram mais atenção do que o problema, atual e verdadeiro, da precariedade dos ensinos público e privado do Brasil.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Droga do século XXI

                            

Criada em plena Guerra Fria, a internet foi a pesquisa militar, ouso dizer, mais bem sucedida a curto, médio e longo prazo desde sua criação até os dias de hoje. Ela surgiu no momento em que o antagonismo no mundo era pautado pela bipolaridade e pela forte necessidade  de se estar sempre um passo à frente do oponente socialista/capitalista.
Nesse sentido então, foi idealizado um modelo de troca e compartilhamento de informações que permitisse a descentralização das mesmas. Assim, se o Pentágono fosse atingido, as informações armazenadas ali não estariam perdidas.
O ataque inimigo nunca aconteceu, mas o que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos não sabia era que dava início ao maior fenômeno midiático do século XX, único meio de comunicação que em apenas 4 anos conseguiria atingir cerca de 50 milhões de pessoas.
Em 29 de Outubro de 1969 ocorreu a transmissão do que pode ser considerado o primeiro e-mail da história; o texto desse primeiro e-mail seria "LOGIN", mas o computador no Stanford Research Institute, que recebia a mensagem, parou de funcionar após receber a letra "O".
Por fim, vale destacar que já em 1992, o então senador Al Gore, já falava na Superhighway of Information. Essa "super-estrada da informação" tinha como unidade básica de funcionamento a troca, compartilhamento e fluxo contínuo de informações pelos quatro cantos do mundo através de uma rede mundial, a Internet.
O que se pode notar é que o interesse mundial aliado ao interesse comercial, que evidentemente observava o potencial financeiro e rentável daquela "novidade", proporcionou o boom e a popularização da Internet na década de 1990. Até 2003, cerca de mais de 600 milhões de pessoas estavam conectadas à rede. Segundo a Internet World Estatistics, em junho de 2007 este número era de aproximadamente 1 bilhão e 234 milhões de usuários. 
E não por menos, a internet vem afetando os usuários de sua rede com sintomas que já são considerados vícios, e que já possuem sintomas reconhecidos e clínicas de tratamento.
Toda essa cobrança pela necessidade de aderir ao uso do computador, principalmente na esfera profissional, acaba por gerar certa angústia, o que também acaba por envolver não apenas os adolescentes nesse tipo de comportamento.
Segundo um estudo da Universidade de Maryland (EUA), estudantes privados de redes sociais e equipamentos eletrônicos durante um dia desenvolveram síndrome de abstinência similar à de dependentes de drogas.
O experimento “24 hours: Unplugged” pediu a 200 estudantes de 18 a 21 anos que deixassem de utilizar qualquer equipamento conectado a mídias eletrônicas e redes sociais como celular, TVs, iPods, Blackberries ou laptops.
Os resultados*, segundo o estudo, foram semelhantes aos observados em usuários com dependência química. Para descrever como se sentiam, os universitários utilizaram os termos “desejo incontrolável, muita ansiedade, apreensão extrema, tristeza profunda, tensão e loucura”.
Uma outra pesquisa realizada por pesquisadores da University of Notre Dame, em parceria com especialistas da Sun Yat-Sen University, em Guangdong na China, indicou que os adolescentes viciados em internet têm mais chances de se auto-flagelar com beliscões, queimaduras, de se baterem ou puxarem seus próprios cabelos. Segundo a agência de notícias Reuters, o estudo foi realizado com 1.618 adolescentes, com idades entre 13 e 18 anos.
O estudo com voluntários chineses identificou que 10% dos jovens podem ser considerados “moderadamente viciados” em internet, enquanto 1% é “severamente viciado”.
Segundo os estudos realizados sobre o tema, como as drogas químicas, a compulsão no uso da Internet também está relacionado à sensação de prazer físico que ela produz. A cada download de uma foto sexualmente orientada, na interatividade em um chat, no momento de abrir um e-mail esperado, no jogo virtual, são produzidas no cérebro descargas elétricas entre os neurônios, induzidas por um neurotransmissor chamado dopamina.                                         A dopamina é liberada normalmente pelo cérebro quando uma pessoa faz sexo, come ou bebe. Quanto mais dopamina, maior a sensação de prazer. A dependência a Internet mantém esse mesmo padrão fisiológico, criando uma dependência naqueles pequenos momentos de prazer. O problema é que a Internet propicia uma rapidez muito grande nas atividades interativas, aumentando as chances de dependência. Devemos levar em conta também, que existem além dos motivos fisiológicos, razões de ordem motivacional, que podem agravar o quadro de dependência.

 *Os meios mais utilizados pelos estudantes norte-americano para se comunicar são, segundo a pesquisa, SMS e Facebook. Em segundo lugar, distante, vêm as ligações telefônicas e os e-mails. "Renunciar à tecnologia equivale a renunciar à vida social para esses estudantes”, diz a professora. “Os estudantes reclamaram que era muito chato ir para qualquer lugar ou fazer qualquer coisa sem ouvir os MP3”.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Greve da UnB é notícia no site Último Segundo

Ao completar 51 dias de greve e depois de já tantas reviravoltas, a greve da Universidade de Brasília vira notícia no site de notícias Último Segundo. Abre aspas:
"O ócio da greve: 51 dias sem aulas na UnB
Estudantes entediados, sem pique de estudar e caindo na balada. Essa é a rotina de grande parte dos alunos desde março
Corredores vazios e alunos entediados: um retrato da greve
Há 51 dias estudantes da Universidade de Brasília (UnB) estão sem aulas. Não ter de estudar para provas, aguentar professores chatos, fazer trabalhos nem se dividir entre a sala de aula e projetos de pesquisa ou estágios poderia até ser motivo de comemoração. Mas, entre os universitários, a avaliação da greve não é nada boa.
Luís Felipe do Prado, 17 anos, calouro de engenharia mecânica, é um dos inúmeros estudantes que não têm nada para fazer. Ele fica em casa o dia inteiro, serve de suporte para a família – resolve problemas burocráticos, paga contas, espera o instalador de qualquer coisa – e cai na balada com os amigos quase todo dia.
Para ele, que ainda não havia tido tempo de se envolver com as possibilidades de extensão e pesquisa da universidade, os espaços da academia não fazem muito sentido na greve. Além de tudo, Luís teme demorar a se focar novamente nos estudos quando as aulas recomeçarem – sabe-se lá quando.
“Eu não acreditava que passaria no vestibular. Já estava tendo aulas no cursinho quando fui aprovado na segunda chamada. Estava estudando demais. Agora, perdi o ritmo”, diz. Luís admite que, por um lado, a folga é boa depois de tanto tempo de preparação para o vestibular. Mas a aguardada atribulação do semestre pós-greve o desanima.
Professores e funcionários estão em greve há quase dois meses.
Os amigos Rodrigo Maestrali, 20, João Augusto Martins de Santana, 23, Gustavo Nunes, 20, e Rafael Queiroz, 18, alunos do curso de física, já estão cansados da greve. Rodrigo vive uma situação considerada pelos universitários das piores em dias de greve: dois professores não pararam as aulas.
A rotina de Rodrigo inclui aulas todos os dias na UnB. Sem nenhum pique para estudar depois dos encontros, ele assiste as aulas desanimado. Não pode deixar a universidade agora, nem quando a greve acabar. “Não fiquei de férias, como todo mundo, e ainda terei de continuar estudando depois. É horrível”, opina.
João Augusto também está chateado porque as férias ficarão comprometidas após a greve. Segundo a decana de Graduação da UnB, Márcia Abrahão, se a paralisação acabasse hoje, as aulas precisariam ser dadas até fevereiro para dar conta de cumprir o calendário letivo integral dos dois semestres previstos para 2010.
A previsão, por enquanto, é de que haja um intervalo de apenas três semanas entre um semestre e outro. No fim do ano, na suposição elaborada pelo decanato, os estudantes teriam folga entre os recessos de Natal e Ano Novo e na primeira semana de janeiro. Mas, definitivamente, só dá para ajustar o calendário após o fim da greve.
Formatura atrasada
Tainá Batista de Assis, 23 anos e Wanne Kelly Souza Silva, 22, estão no último semestre de biblioteconomia. Elas admitem que até deveriam comemorar o fato de, sem aulas, terem mais tempo para elaborar a monografia de conclusão do curso. A realidade, no entanto, é que elas estão mais preocupadas com possíveis atrasos na formatura.
As colegas Wanne Kelly Silva e Tainá Batista de Assis,
preocupadas com a monografia e a formatura.
Sem o diploma, as futuras bibliotecárias não podem obter o registro do Conselho Regional de Biblioteconomia e procurar um emprego. Além disso, elas se preocupam com as datas já definidas para a colação de grau e a festa de formatura. “A greve é péssima, especialmente porque a biblioteca está fechada”, lamenta Tainá.
A greve da UnB não está restrita aos professores. Os servidores da instituição também decidiram cruzar os braços em protesto contra a ameaça de cortes salariais. O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão defende que o pagamento URP (índice que reajustava os salários na época da inflação e foi incorporado à remuneração dos servidores na década de 1990) é ilegal.
A briga está na Justiça. Os professores e os funcionários já ganharam em algumas instâncias. Mas, nesta quarta-feira, os técnicos perderam parte da batalha no Tribunal Regional Federal (TRF), que considerou o pagamento ilegal para 204 servidores aposentados que haviam entrado na Justiça para garantir o pagamento. O caso dos professores será julgado pelo Supremo Tribunal Federal, em data ainda não definida.
Na próxima sexta-feira, os professores farão uma assembleia para decidir o futuro da greve. Marcelo Aparecido de Brito, 28, aluno do segundo semestre de história não vê a hora de as aulas recomeçarem. Por enquanto, ele só tem as aulas de inglês para se ocupar.
Aiessa Balest, 20, universitária de farmácia, aproveitou esse tempo de paralisação para adiantar as tarefas do projeto de pesquisa que participa. Apesar disso, não vê a hora de recomeçar o semestre. De verdade.
"Fecha aspas.

E o pior de tudo é acostumar-se com os dias vazios, vazios. Eu, particularmente, que tenho apenas as aulas de inglês para ter que aparecer na UnB, assim como o estudante Aparecido de Brito, apóio a greve, embora esteja desejosa de aulas.
Nem mesmo os livros retirados da BCE foram terminados. A maioria no meio e dois nem sequer foram abertos. Sem pressão não há trabalho eficiente...
Ironicamente, a Universidade, mesmo em greve, prende os estudantes em margens virtuais de segurança. Os estudantes ficam amarrados a datas que chegam e se vão, e que não modificam o dia-a-dia tedioso, nem os deixam encontrar meios de ganhar uma renda, por menor que seja, com medo do retorno das aulas.
Muitos, certamente a maioria, aproveitam para ir ao cinema, teatro, shows, boates, casa de amigos, limpar  a casa para a mãe, ler e dormir...dormir...dormir...
Renato Russo já disse no passado, referindo-se ao ócio do cerrado brasiliense, hoje os estudantes UnBersitários repetem com vozes morgadas em suas camas:
"Tédio com um T bem GRANDE pra você!"

*Priscilla Borges, iG Brasília
28/04/2010 18:29 - notícia atualizada às 10h20 de 29/04
**Fotos: Marcos Brandão/OBrittoNews Ampliar

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para quem tem medo de envelhecer...

Que sorte tem aqueles que podem dizer a si mesmos ao fim da vida: "Vivi"
Por muito ou pouco tempo, não importa, não é realmente a quantidade de dias que interferem na satisfação de viver bem. Há quem ache o discurso ultrapassado e piegas, de fato, o lema viver a vida não é nem de perto jovem, mas deve ser por isso que se mantém tão correto.
Já diziam os árcades, em suas lúgubres cavernas, em forma de rima latina "Carpe Diem", colha seu dia.
Essa semana, veio à mídia a notícia do pequeno Harry Crowther, de West Yorkshire, na Inglaterra, que sofre de *progéria atípica, uma forma um pouco menos severa da *progéria clássica conhecida como síndrome de *Hutchinson-Guilford.
O garoto, de 11 anos, envelhece cinco vezes mais rápido que as pessoas normais e já sofre de artrite, tem estatura menor do que a de seus colegas, não tem gordura corporal, mas diferentemente da síndrome clássica, cujos afetados geralmente vivem apenas até a adolescência, sua expectativa de vida pode ser mais alta. Há casos de pacientes da síndrome atípica que viveram até mais de 30 anos de idade
A pele de Harry já começou a afinar, seu cabelo cresce lentamente e os ossos de seus dedos e da clavícula começaram a erodir.O menino toma analgésicos quatro vezes por dia e faz hidroterapia para ajudá-lo a suportar a dor e exercitar as juntas.
A doença de Harry Crowther é tão rara que seu caso é o único confirmado no Reino Unido. Em todo o mundo, apenas 16 casos** são conhecidos.
O jovem, que também é escoteiro e anda de skate e bicicleta, tem sua saúde monitorada constantemente, mantém uma dieta baixa em gorduras e realiza atividades físicas para evitar desenvolver problemas cardíacos, comuns nesse tipo de doença.
A síndrome de Hutchinson-Guilford é causada por uma mutação no gene LMNA (conhecido como o gene do envelhecimento), que faz com que ele envelheça a uma velocidade muito mais rápida do que o normal, como o caso de Jack***, interpretado por Robbin Willians, na ficção de mesmo nome.
No longa-metragem, Jack, que envelhece quatro vezes mais rápido que seus amigos, mostra com humor e delicadeza os profundos questionamentos de envelhecer e de viver da melhor maneira possível, adaptando-se ao mundo que o rodeia.
Tanto Jack quanto o pequeno Harry tem mais do que a síndrome em comum, em meio a todos os problemas que uma criança tem na escola e em casa com os pais, ambos nos mostram que sempre podemos seguir a vida e vivê-la da melhor maneira possível.
Viver é senão o mais difícil dos acontecimentos existenciais, o mais complexo de se aprender. Morrer todos vamos, sem saber o dia ou com que aparência, mas vale a tentativa, sempre, de sermos sempre melhores.
 
"Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu."
FRANCISCO OCTAVIANO

*Progeria ou Envelhecimento Precoce
É uma doença genética extremamente rara que acelera o processo de envelhecimento em até cerca de sete vezes em relação à taxa normal. A palavra progeria é derivada do grego e significa "prematuramente velho". A expectativa média de vida das pessoas é de 14 anos para as meninas e 16 para os meninos. Desde a sua identificação foram relatados cerca de 100 casos. As vítimas de progeria nascem bebês normais mas, por volta dos 18 meses, começam a desenvolver sintomas de envelhecimento precoce.
Características:
As principais características clínicas e radiológicas incluem a queda do cabelo, perda de gordura subcutânea, artrose estatura baixa e magra, clavícula anormal, envelhecimento prematuro, face estreita, pele fina e enrrugada, puberdade tardia, sobrancelhas ausente, unhas dos pés finas, voz anormal, lábios finos , osteoporose entre outras. A inteligência não é afetada. A morte precoce é causada por aterosclerose.
**Segundo o Great Ormond Street Hospital, onde o menino recebe tratamento.
***Dirigido pelo premiado cineasta FRANCIS FORD COPPOLA#, Jack (ROBIN WILLIANS) quer ir à escola e brincar com outras crianças. Só que ele não é um garoto comum: portador de uma doença rara, Jack envelhece quatro vezes mais rápido que o normal, fazendo dele um menino em corpo de homem. O talento extraordinário de ROBIN WILLIAMS sob a primorosa direção de COPPOLA faz desta comédia um filme imperdível para toda a família.
# Vencedor de cinco Oscar®

A família do menino utilizou das mídias sociais para criar uma página no Facebook para divulgar informações sobre a doença e ajudar outras pessoas que tenham sintomas semelhantes e não tenham conseguido diagnosticar a doença

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Música de Abertura - África 2010

E Shakira foi a escolhida para cantar a música oficial da Copa Mundial de Futebol 2010!
Podemos comemorar?
Claro!
A Confederação que organiza a copa queria uma cantora que fosse reconhecidamente pop.Tentativa de abrilhantar o hino? Talvez, e mesmo assim, conseguiram mais do que isso: a música não regionaliza a África, lembrando que todo o Globo participa do evento e, de quebra, é a cara do continente anfitrião: é alegre e vibrante como o povo africano. A música parece emanar sorriso, dá vontade de dançar, balançar os braços enquanto se escuta.
Já diz ela: " Ahora vamos por todo/ y te acompaña la suerte/ Samina mina sam ¡aleguah!/ Porque esto es África". E fica evidente que a parceria com a banda sul-africana Freshlyground foi um grande acerto da cantora colombiana para essa Copa que promete.
O tema do mundial terá sua estreia oficial num concerto em Joanesburgo, na véspera do início do campeonato.Shakira também nos alegrará no dia 11 de Junho, durante a cerimônia de abertura da copa.
O Brasil vai ganhar?
Não sei. Eu gostaria que sim! Mas quem sabe dá azar, e na copa de 2014 a gente não ganha em casa. Melhor não gorar. *Campanha, Dunga leva o Ronaldo?
Já vale a torcida pelo Brasil. Importa muito a ideia de que somos nacionalistas e felizes (!) apenas na época da Copa. Relevante entender também daonde surge tanto "patriotismo": dos "noventa milhões em ação, pra frente Brasil...!" Hoje somos mais de 180.000.000, e a ideia de nacionalismo beira o ufanismo nessa época que arrecada milhões em lucros de propaganda e souvenirs.
Não vale à pena lutar contra algo já culturalmente nosso, mas é preciso que no lugar de apenas alegria, não esqueçamos do início das campanhas eleitorais federais e estaduais, que saibamos levantar a bunda do sofá para gritar GOOOOOLLLLLL!!!! *do Ronaldo? - Campanha, Dunga leva o Ronaldo?  e que saibamos sentá-la novamente para escutarmos com atenção o horário político eleitoral.
Não sejamos burros achando que a Rede Globo ou a Record é capaz de eleger por elas somente os nossos futuros candidatos. Vote com sabedoria!
Abaixo você confere a música oficial da Copa do Mundo de Futebol da África do Sul 2010:
            
Eu sugiro que você aumente o som. Enjoy!

Llegó el momento, caen las murallas
Va a comenzar la unica justa de la batallas
No duele el golpe, no existe el miedo
Quitate el polvo, ponte de pie y vuelves al ruedo

Y la presión que sientes
Espera en ti, tu gente!
Ahora vamos por todo
y te acompaña la suerte

Samina mina sam ¡aleguah!
Porque esto es África

Samina mina ¡eh! ¡eh!
Waka Waka ¡eh! ¡eh!

Samina mina sam ¡aleguah!
Porque esto es África

Oye tu dios
y no estarás solo
llegas aqui para brillar
lo tienes todo

la hora se acerca
es el momento
Vas a ganar cada batalla
ya lo presiento

Y que empezar de cero
para tocar el cielo
Ahora vamos por todos
Y todos vamos por ellos

Samina mina sam ¡aleguah!
Porque esto es África
 
*A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) confirmou que Dunga fará a escalação oficial para a Copa do Mundo no dia 11 de maio. Exatamente um mês antes da abertura do Mundial na África do Sul. O anúncio dos 23 jogadores escolhidos será feito às 13h, pelo horário de Brasília. Depois de anunciar os convocados, o técnico da seleção brasileira concederá uma entrevista coletiva.
O Brasil está no grupo G da Copa do Mundo, ao lado de Costa do Marfim, Portugal e Coreia do Norte, contra quem a seleção faz sua estréia no dia 15 de junho.

Dilma no Twitter

                                          
      Candidatos à presidência no Brasil utilizando as mídias sociais

Onze de abril, Dilma Roussef apresenta-se: "Bom dia, boa tarde, boa noite p/ quem me lê em qquer lugar do mundo. Começo hoje minha aventura no twitter. Quero aprender c/ vcs." Foi assim que, nesse mês, a candidata petista à presidência tornou-se uma das mais novas usuárias da mídia social twitter, terceira colocada entre as mídias sociais mais usadas no Brasil*.
Ela não foi, contudo, a primeira; os outros candidatos presidenciáveis, como o tucano José Serra, a senadora Marina Silva (PV-AC) e o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), já usufruiam da mídia e no mesmo onze de abril, José Serra após o lançamento de sua candidatura, postou: “A partir de agora, então, vocês seguem um pré-candidato à presidência da república. rs Boa noite a todos.” No outro lado, Marina Silva reunia mais de 19 mil seguidores enquanto Ciro contabilizava 11 mil.
No dia seguinte, a ex-ministra twitou: "C/um pouco de atraso,pois estava voando p/ Fortaleza,agradeço a companhia dos 16.783 do primeiro dia de twitter.Vamos continuar conversando." , mostrando a força da internet nas futuras candidaturas, legado muito bem utilizado pelo atual presidente norte americano em sua campanha.
Então, será que assim como a TV 3D está para a Copa Mundial de Futebol 2010 na África do Sul, o Twitter está para as futuras campanhas presidenciais brasileira? Não seria muita pretensão, a internete pode e conseguirá modificar os perfis dos futuros eleitores, possibilitando que informações sejam transferidas diretamente das fontes. Deixando em nosso encargo o senso crítico da pesquisa, atenção e comparação de fatos.
Dilma já twitou: "É p/as crianças e jovens que temos que criar uma sociedade baseada no conhecimento,na livre circulação de idéias e informações,na educação." e ainda: "Voltamos a fazer política industrial:tudo o que pode ser produzido no Brasil deve ser produzido no Brasil.Isto fez e faz toda a diferença." Futuras promessas eleitorais para a consolidação da política interna e externa de seu companheiro Lula? Cedo para campanha, mas não para entender as intenções de um futuro governo.
O interessante é saber que podemos estar, teoricamente, mais próximos daqueles que poderão governar nosso país, vale à pena estar de olho no que os candidatos postam diariamente, acompanhar os noticiários, ler os jornais e a internet. Sejamos presentes na mudança de atitude. 

*(dados de 02/2009).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Snap e as Pulseiras do Sexo

                 
                             Charges.com e as pulseirinhas do sexo
Entendamos o conceito:
SINAL é algo que significa alguma coisa. Um sinal ou figura é sempre menor que o seu significado, por exemplo, quando em uma determinada situação, uma pessoa faz um sinal de levantar um tecido branco e o balançar. Esse ato é parte do significado: rendição.
SÍMBOLO, ao contrário do sinal, exige um conhecimento específico para ser entendido e assimilado, podendo nada representar para pessoas que não convivem em determinado meio. Um símbolo é compreendido apenas no meio daqueles que o conhecem, exemplo atual: as pulseiras do sexo. 
 
Feitas para um jogo que virou febre nas escolas do Reino Unido, o Snap, nesse game a menina coloca várias pulseiras de silicone coloridas no braço e um jovem tenta arrebentá-las. Cada cor representa uma ação, que vai desde um abraço até "vale tudo", a prenda é paga assim que a pulseira correspondente é arrbentada.Cada uma tem um significado que, invariavelmente, conduz a conotações sexuais ou erógenas.
Esse tipo de ideia não é uma novidade do século XXI, nos anos 70, na comunidade gay de São Francisco e de Nova York, começou o uso de lenços no bolso traseiro das calças jeans: as cores correspondiam ao tipo de relação desejada, e o bolso escolhido dizia se o homem queria ser o "ativo" ou o "passivo".
Há alguns anos, uma empresa sueca inventou a "aliança dos solteiros", diferente das de compromisso pratas utilizadas por namorados e noivos, e das de matrimônio, douradas;  as dos solteiros são de acrílico externo turquesa modelados sobre anéis de prata e utilizadas com ituito de deixar claro que, em uma balada, a pessoa está solteira e à caça.
É sempre aquela vontade surrupiada de dizer algo que se tem vontade de dizer ou mostrar a respeiro de si e não se pode ou não é aceito publicamente.Mas, ainda assim, isso nao isenta do símbolo um significado. Não é porque uma pessoa não sabe o significado de um pingente que usa diariamente, que o significado deste símbolo deixa de existir, e de significar.
Posso afirmar: muitas das crianças e adolescentes que usam essas pulseiras usam apenas pelo design e por acharem-nas bonitas, mas pedófilos, estupradores e uma gama de gente mal intencionada reconhece o poder da ingenuidade no uso de "pulseirinhas bonitinhas";
O assunto já foi largamente discutido nas mídias, governos estaduais proibiram o uso dos acessórios, alguns optaram pelo esclarecimento em detrimento da obstrução, mas fica claro o perigo: nas últimas semanas, três jovens que usavam as pulseiras foram estupradas na Amazônia, duas delas foram mortas. Em Londrina, no Paraná, uma menina de 13 anos, que também usava as pulseiras, foi estuprada.
Coincidência ou não, as pulseiras estavam ali. 

terça-feira, 20 de abril de 2010

e em Brasília....

CRÔNICA DE MEIA IDADE
-BRASÍLIA 50 ANOS-

Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, então ficou deitado e viu que horas eram, enquanto Clarisse continuava trancada no seu quarto com seus discos e seus livros do Bandeira e do Bauhaus, antes, acostumada a sonhar, já não dormia.
Ainda era translúcida a memória que tinham da festa estranha e com gente esquisita do mês anterior aonde trocaram telefones e decidiram se encontrar. Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas Clarisse preferiu sair para ver o mar e as coisas que ela via na televisão. E assim haviam ficado combinados.
Desde então, Clarisse não entendia porquê seu telefone não tocava nunca ou porquê ele jamais dera notícias. Incomodava-lhe a experiência de ter-se envolvido tanto com tão pouco em troca já que tudo parecia lembrar os gestos, caras e cheiros dele e, não raro, Clarisse pegava-se treinando sua própria voz dizendo frases feitas, ouvidas em algum de seus cd's:
- O céu já foi azul, Eduardo, mas agora é cinza...Veja o sol dessa manhã tão cinza de Brasília, a tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos, Eduardo...

Trrrrriiiimmmmmmmm
Era o telefone do trabalho do Eduardo, mas ele nem chegou a ouví-lo, sentiu-se distraído, impaciente e indeciso. Eram sempre dias difíceis desde aquela festa, mas aquele estava especialmente angustiante: não sabia aonde havia guardado o telefone de Clarisse, insistia em dizer para si mesmo: "Sei que anotei seu telefone em um pedaço de papel e calculei seu ascendente no recibo do aluguel...mas onde eu os coloquei?"
Eram seis horas e ,estressado com o dia, Eduardo desistiu de encontrar o número do telefone de Clarisse no escritório. Já havia muitos motivos para deixar tudo como estava:
- Agora tanto faz, estou indo de volta pra casa!
On the way home, enquanto andava o percurso entre a Firma e a parada de ônibus, lembrou de sua mãe e de seus pedidos de cuidados frequentes, aceitou a imposição psicológica e recitou mentalmente enquanto tentava entender como um só Deus é ao mesmo tempo três, e corria a avenida:
- Nossa Senhora do Cerrado, protetora dos pedestres que atravessam o Eixão às seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo porque vai ter peixada na Analú e domingo, cachorro quente com as crianças na Fernada...
 Entrou em um ônibus no Planalto Central e ficou bestificado com a cidade. Saindo da rodoviária viu as luzes de natal e por um momento esqueceu que seu coração estava incompleto sem a presença de Clarisse.
- Meu Deus, mas que cidade linda! No Ano Novo eu recomeço a trabalhar...

Anoitecera e a linha do horizonte distraía Clarisse: "Aonde está você agora além de aqui dentro de mim?", pensava recostada na janela do metrô, "Já esqueci seu sobrenome, mas continuo me lembrando de você, quero lhe ver, mas nesse horário você deve estar pegando o carro no conserto, vendo a conta do banco, cartão, IPTU...tantas coisas mais importantes do que eu"
Seu suspiro fez virar o rosto de um menino branco, que parecia tentar se divertir, no banco ao lado, mas não se importou; já havia chegado à conclusão de que era impossível ter da vida ,calma e força. Desde que a distância entre ela e Eduardo só aumentava ela só sabia o que era viver em dor o que ninguém entende, tentando ser forte a todo e cada amanhecer.

Clarisse era um animal sentimental que se apegava facilmente ao que despertava seu desejo, cortejava a insanidade para ter seu equilíbrio e, acreditando em possibilidades, não desistiu de Eduardo até aquela noite. Nada mais a iria ferir, decidiu, "Eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei...tenho o que ficou de seus olhos castanhos. Adeus, meu grande amor"
Desceu na estação 108 Sul do metrô e enquanto passava as ruas, olhava os mesmos apartamentos acesos, tudo parecia tão normal, e ainda andando teve a impressão de que podia ouvir alguém lhe chamando, dizendo seu nome:
- CLARISSÊÊÊ!!!!

Eduardo, no ônibus, tentava entender por que simplesmente não deixou Clarisse no passado, a sensação parecia cocaína, mas era só tristeza. Talvez a cidade.
O que sentia muitas vezes fazia sentido e hoje à noite não descubriu um motivo que lhe explicasse porque é que não conseguia ver sentido no que sentia e no que procurava: ela. Quando, olhando distraído pela janela, viu um par de olhos observando as luzes dos apartamentos. O sinal havia fechado e o ônibus parara na L2 Sul, seu coração não acreditava no que seus olhos viam, parecia um sonho que há tempos teve e que não se lembrava, nunca lembrava. Levantou-se esbaforido, a adrenalina era como fogo em suas veias, desceu do ônibus e gritou:
-CLARISSÊÊÊ!!!

Clarisse não foi sutil em sua virada, com o coração rígido feito estátua, seu corpo apenas obedeceu ao reflexo de sua chamada, virou-se e teve a sensação de não poder mais respirar. Se houvesse tido apenas a saudade, mas sempre havia algo mais, seja como for, era uma dor que doía no peito instantaneamente aliviado.
O grito também teve efeitos em Eduardo, achava que se sua voz tivesse força igual à imensa dor que sentia, seu grito acordaria a vizinhança inteira...parecia que nunca antes sua voz havia feito tanto esforço com tanta vontade.
Seus olhos se encontraram e suas mãos pareciam saber a presença uma da outra, e se juntaram.
- Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver. O mundo anda tão complicado, você não vai acreditar quando eu lhe contar...

Foram horas conversando, explicações para Clarisse, novidades para Eduardo, e com o amor reflorido pensavam nas possibilidades daquele encontro; a noite merecia uma comemoração.
Eduardo, que não se sentia meio tonto desde a festa estranha, dizia, segurando a mão de Clarisse: "Vamos deixar as janelas abertas e deixar o equilíbrio ir embora, cair com o um saxofone na calçada...Vamos lá, tudo bem, eu só quero me divertir, esquecer de todas as outras noites sem você e ter um lugar legal pra ir...
 - Nós somos tão modernos, Clarisse disse entre sorrisos.
 - Porque esperar se podemos começar tudo de novo, agora mesmo?
 - Então me abraça forte e me diz que estamos distantes de tudo e que temos nosso próprio tempo!Está ficando tão tarde, Eduardo, não quero me separar de você nunca mais.
 - Não, meu amor, ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo. Não vá agora, quero antes fazer-lhes honras e promessas e dar-te lembranças e estórias.

(...)
Dez horas

(...)
Meia Noite

TRRRIMMMMMMM
(Ele debaixo do bloco, olhando para a janela do quarto dela. Ela prostrada sobre a varanda do apartamento, olhos nos olhos dele:)
- Não se preocupe, meu amor, vou ficar aqui com um bom livro ou com a TV, por favor cuidado na estrada e quando você voltar, tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e saiba que te amo...

O FIM DA HISTÓRIA??

Construíram uma casa há uns dois anos atrás mais ou menos quando os gêmeos vieram. Batalharam grana, e seguraram legal a barra mais pesada que tiveram. Moraram em São Paulo, São João, São Francisco, São Sebastião e sempre voltam pra Brasília quando nossa amizade dá saudade no verão.
Só que nessas férias, não vão viajar porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação!
Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

- Leila para o Jornal Minny.na, edição especial "Brasília 50 anos"-

Carta fictícia escrita pela personagem musical Leila, da música de mesmo nome, relatando a história romântica de outros dois personagens das músicas da Legião Urbana, Eduardo e Clarisse. Minha homenagem aos meio século de vida de Brasília e de memória de Renato Russo, amante e morador do Planalto Central.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Estação Carandiru

ESTAÇÃO CARANDIRU
-Dráuzio Varella-

Lançado inicialmente em 1999 pela Companhia das Letras, Estação Carandiru é um livro de linguagem simples,marcadamente impactante que relata o dia-a-dia do  trabalho voluntário do médico Dráuzio Varella na prevenção à AIDS na Casa de Detenção, suas complicações e seus envolvidos,e é sugestão de leitura do Minny.na
"Vocês estão chegando na Casa de Detenção de São Paulo para pagar uma dívida com a sociedade. Aqui não é a casa da vovó e nem da titia, é o maior presídio da America Latina"; a apresentação do Presídio aos detentos recém chegados não vela nem encobre os olhos daqueles que entram nos Pavilhões sem a certeza de volta ao lar. Para alguns o caminho é só de ida.
Uma das coisas mais impressionantes, embora não imprevisível, é a capacidade do ser humano de organizar-se mesmo em tamanha conturbação. Regem-se novas leis e regras que vigoram com tamanha, ou mais eficiência, mesmo que com base na violência, do que aqui fora, na "sociedade livre". Em cativeiro, os homens, como os demais primatas, criam novas regras de comportamento com o objetivo de preservar a integridade do grupo. Esse processo adaptativo é regido por um código penal não escrito, como na tradição anglo-saxônica, cujas leis são aplicadas com extremo vigor.
Dráuzio Varella, no entanto, tem intenção de mostrar que a perda da liberdade e a restrição do espaço físico não conduzem à barbárie, e, quando presente, não somente a ela, como muitos de nós achamos.
Durante todo o livro, o autor descreve situações ímpares de dentro do Carandiru, como a forma que o dinheiro entra e influencia a vida carcerária. Seria de se pensar que em uma cadeia dinheiro algum além dos impostos pagos pelos cidadãos circulasse em seu interior. O que se vê, no entanto, é a infame necessidade do dinheiro para comprar do ladrão dono do xadrez um "concreto" para dormir.
A situação é especialmente alarmante para aqueles que chegam sem amigos, dinheiro e família. Valtércio, um detento, comenta: "Óh a situação do país, doutor, ter que pagar pra morar na cadeia".
Outro fato que chama atenção é a complexa rede de ligação entre os detentos.  Há normas claras e bem definidas de convivência, aceitação, moradia, nada parecidas com as reivindicadas pelos defensores dos Direitos Humanos. Chega-se a possuir eleições diretas para diversos cargos. Caso da FIFA (Federação Interna de Futebol Amador).
À metade do livro, o autor retrata histórias reais e chocantes de presos e personagens de tantas crônicas comentadas no decorrer do livro. Entre os mais de 7200 presos, o médico autor conheceu pessoas como Mário Cachorro, Sem-Chance, seu Jeremias, Filósofo, Loreta e seu Luís. O relato não busca denunciar um sistema prisional obsoleto e desumano, mas trata as pessoas caso a caso, mesmo em condições nada propícias à manifestação da individualidade.
O último capítulo relata as distintas versões do Massacre do Carandiru, de outubro de 1992; a maior chacina dos presídios brasileiros.
“Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111", as palavras são do coronel Ubiratan Guimarães, que comandou o massacre da Polícia Militar no Presídio do Carandiru. Ubiratan foi considerado culpado pela morte de 102 pessoas e por tentativa de homicídio contra outras cinco. A pena foi de 632 anos de prisão em regime fechado, seis anos de prisão por cada morte: foi a maior condenação da história da Justiça brasileira.
De acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público, apesar do grande tumulto e de sinais de fogo, não havia perigo de fuga. Com a chegada da Polícia Militar, os presos começaram a jogar estiletes e facas para fora, demonstrando que não resistiriam à invasão. Alguns colocaram faixas nas janelas, indicando um pedido de trégua.
Não houve, no entanto,negociação alguma. As tropas da Polícia Militar compostas por 325 PM's, invadiram às 16:30 o pavilhão 9 sob o comando e instrução do coronel, ação que seguiu até às 18h30.
Depois da tomada do térreo, sem resistência ou reação com armas de fogo por parte dos presos, segundo o depoimento dos próprios policiais envolvidos na ação, exceto o depoimento do coronel Ubiratan, os policiais partiram para os andares superiores. A maioria dos presos refugiou-se nas suas celas, onde muitos deles foram mortos.
Os PMs dispararam contra os presos com metralhadoras, fuzis e pistolas automáticas, visando principalmente a cabeça e o tórax. Na operação também foram usados cachorros para atacar os detentos feridos. Ao final do confronto foram encontrados, segundo a versão da polícia, 111 detentos mortos: 103 vítimas de disparos (515 tiros ao todo) e 8 mortos devido a ferimentos promovidos por objetos cortantes. Não houve policiais mortos. A ação resultou, ainda, em 153 feridos, sendo 130 detentos e 23 policiais militares.
A perícia concluiu que só 26 detentos foram mortos fora de suas celas. Os presos mortos foram atingidos na parte superior do corpo, em regiões letais como cabeça e coração. Os exames de balística informaram que os alvos sugeriram a intenção premeditada de matar. Um detento tinha 15 perfurações de disparos de arma de fogo no corpo. Diante de tamanha violência, muitos detentos se jogaram sobre os corpos que estavam no chão, fingindo-se de mortos para conseguir sobreviver.
Segundo a versão dos presos, foram mortos cerca de 250 presos.


Em 2002, iniciou-se o processo de desativação do Carandiru, com a transferência de presos para outras unidades. Hoje o presídio já se encontra totalmente desativado, com alguns de seus prédios já demolidos e outros que foram mantidos, para serem posteriormente reaproveitados. O governo do estado de São Paulo construiu um grande parque no local, o Parque da Juventude, além de instituições educacionais e de cultura.

Sucesso de vendas, com mais de 460 mil exemplares, Estação Carandiru conquistou também a crítica, em 2000 ganhou  o PRÊMIO JABUTI , e foi transformado em filme (CARANDIRU) por Hector Babenco em 2003.

* Alguns dados de pesquisa de Sandra Carvalho e Evanize Sydow

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O CASO GEYSE

Lembram-se da Geyse? Vestido de cor rosa (nem tão curto assim), loira, ex-estudante da Uniban?
Ela está de volta e vem conquistando mais do que alguns ex-BBB's ou fazendeiros espalhados por aí. Levada à fama pela mídia, a loira aproveita* cada oportunidade que lhe é apresentada e que é alimentada por nós, meros mortais, que não temos um vestido curto rosa.
O assunto não é mais novo, com certeza já foi esquecido das rodas de conversas entre amigos, mas o questionamento e principalmente as consequências que envolvem o conflito, persistem.
Há quem discuta o fato sobre a óptica de um motivo diverso do vestido, não há, no entanto, razão para discordar que a manifestação dos alunos atribuiu-lhes senão tendências desrespeitosas, um nível muito baixo de equilíbrio social, pois em todos os lugares do país vêem-se mulheres de mini saias, micro vestidos, pequenos shorts jeans.
O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg afirma ainda que os estudantes e funcionários agressores manifestaram caráter criminológico, não havendo , na situação, mais nenhuma característica ou manifestação de sentimentos sensatos, razoáveis.
Concordo com o profissional, porém contesto o fato de ter sido o vestido o fator do estardalhaço, provavelmente a atitude que ela teve vestida nele é um ponto mais relevante a se questionar.
Em um dos tantos programas que Geyse foi convidada a participar com aquele vestido sem gracinha , ao ser quesionada que colocasse novamente o vestido, ela disse: " É que eu não quero me expôr mais do que eu já fui. Eu posso contar o que aconteceu, mas não quero mais me expôr"
Tudo bem, eu diria, se não soubesse dos futuros fatos dessa irônica história.
Depois do, pra ela, não tão desastroso ocorrido, Geyse deu uma renovada no visual e nas madeichas amarelas e mal cuidadas. Alongou e clareou os fios, colocou um aplique de 70 cm de cabelos naturais importados da Alemanha, fez cirurgia plástica de cerca de 10 horas de duração para ficar parecida com a Carla Perez, lipoescultura, colocou silicone, além de um rigoroso regime e máscara de argila no rosto.
O motivo?
Geyse foi convidada para participar dos desfiles das escolas de samba Leandro de Itaquera e Gaviões da Fiel, SP, e Porto da Pedra, RJ, no carnaval 2010; “Eu nunca desfilei porque nunca tive dinheiro para comprar a fantasia. É um sonho, na hora que me ligaram eu falei ‘claro’, na hora”, disse referindo-se ao convite da Leandro de Itaquera.  "Eu sempre gostei de todas as escolas, acompanhava pela televisão. Vou realizar mais um sonho. O primeiro era ter o cabelo comprido”
Geisy disse que ainda não foram acertados os detalhes de como será sua participação no desfile, mas que quer participar de todo o processo antes do carnaval. “Quero conhecer a comunidade, a escola, conhecer todo mundo. Na próxima festa que tiver eu vou. Quero participar de tudo”.
Mais um motivo?
Recentemente, a loira foi sondada para pousar nua na Playboy. A estudante diz avaliar a proposta e a assessoria da revista relata que as negociações estão avançadas e há apenas um ponto de que a revista não abre mão: que Geyse comece o ensaio usando o famigerado vestidinho rosa.Outro pedido da Playboy é que ela não se matricule em nenhuma outra faculdade, já que intelectuais na capa da revista masculina não vendem bem.Não sei se é, mas então ,além de loira, vai me deixar com a impressão de burra... Pois se a luta toda era para que se aceitasse estudar na faculdade com a roupa que agradasse, abrir mão do direito de estudo para posar sem a roupa me parece um tanto quanto equivocado. Para ser simpática.
A polícia ainda investiga o caso da faculdade, procura culpados e incentivadores, deixo para que eles resolvam isso, enquanto espero que falemos de outras coisas. Cultura, só pra começar.
A última da trama foi, depois de participar do Casseta e Planeta, virar musa do carnaval, gravar um clipe com o Inimigos da HP; a ex-estudante virar Lady Gaga interpretando cenas do clipe Paparazzi. O quadro mostrando a proeza, por alguns sites de humor chamada de Lady Larga, foi ao ar ontem (6/2/2010), no TV Fama da Rede TV.
Pergunto-me se há vida após barraco. Não entendo, até hoje, aonde foram parar os ex Famosos do Miojo (para quem não entendeu: famosos instantâneos), que parecem morrer após o tão precioso quarto de hora.
Fora tudo isso, questiono também quanto tempo ainda resta para que os 15 minutos de Geyse terminem. 
Antes da fama, e muito provavelmente, após ela

Ela ainda quer fazer um curso de atriz e seguir a carreira artística com o cachê da Playboy: "Bem mais a minha cara", disse.....Imagina, ao lado de Antônio Fagundes, ela.
Por favor, não.

- Casos infectados pelo infeliz acontecimento tornaram-se reais, como o caso da estudante do 2º ano do ensino médio, Leandra Cristina França, de 22 anos, negra, que foi impedida de assistir as aulas na escola que frequenta, alegada de estar vestindo uma roupa inapropriada para o local. A discrepância entre as consequências dos acontecidos é notória. Quero Leandra Cristina na Playboy também. -

*Oportunismo - Atitudes daqueles que preferem contemporizar, para atingir um fim, aproveitando-se das circunstâncias oportunas. Tirar proveito.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pancadas literais e literárias.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Carlos Drummond de Andrade

(...)
                                            Teu ombros suportam o mundo
                                            e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
                                            As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
                                            provam apenas que a vida prossegue
                                            e nem todos se libertaram ainda.
                                            Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
                                            prefeririam (os delicados) morrer.
                                            Chegou um tempo em que não adianta morrer.
                                            Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
                                            A vida apenas, sem mistificação.

Às vezes apenas nós entendemos a dor que vem com os dias vividos. São inúmeras as situações que nos trazem conflito e nos demandam tempo e força de vontade para superá-los; não são poucas também as histórias e os exemplos que protagonizamos ou conhecemos de momentos difíceis e decisivos na vida.
A escolha que tomamos em determinada circunstância molda nosso caráter e nossa abnegação a futuras frustrações. Não é o caso de imaginar que ninguém, nunca mais, em lugar algum, vai ter que parar para pensar no próximo passo. Correr na vida em detrimento de pensar nos momentos de angústia, faz com que sejam atropeladas as oportunidades de superação e felicidade.
Religiosamente, acredita-se que a cruz de cada um é diferente, mas nem por isso aberta à suposições de grau e peso. A dor que seu vizinho sente não é necessariamente comparável à sua própria, e achar que se sofre mais, que a vida é mais dura pra você é um tosco tapa olho. Só recebemos aquilo que os ombros podem suportar (acreditando n'Ele como fonte ou não).
"Chega um tempo em que a vida é uma ordem", disse Carlos Drummond de Andrade, e quanto mais se anda, mais se entende que não importam as dificuldades, viver é mais que uma escolha. Em tempos de caos como este em que vivemos, viver é uma ordem pragmática*, embora não tão clara.
Superar as dores das pancadas literais ou das literárias é caminhar à frente da maioria da população que é levada como boi (êhôô, vida de gado) ao matadouro. Não é preciso, no entanto, superar as guerras literais do Afeganistão. Todos temos as próprias batalhas interiores:
Comer aquele bolo com leite condensado e sair da dieta? Ligar para aquele amigo que falou algo que não gostei? Desmarcar com o namorado para sair com as amigas? Mentir para a mãe a respeito do dinheiro que era para pagar o seguro do carro? Para direita ou para a esquerda? Branco ou vermelho? Beatles ou Legião? Machado ou José de Alencar? Rosas ou cravos? Aonde estudar? O que quero ser quando crescer, mãe?!
...todos temos que aprender a sentir o roxo da pancada e vê-la desaparecer aos poucos, deixando em seu lugar o aprendizado de "não, nunca mais vou roubar elástico da costureira pra poder pular na escola, pai"
Ninguém sabe, ao olhar para uma pessoa na rua, as pancadas que essa pessoa já levou ou leva consigo. É válido o exercício do respeito às dores alheias, pois desapegar-se daquilo que nos prende é tarefa árdua, e por vezes deixada de lado por ser de fácil esquecimento. Descobrir-se como pessoa favorece deixar para trás aquilo que achamos muito importante, mas que não nos engrandecem mais.
Não tento, hoje, me desvincular do processo em questão, sou inata da vida e não possuo meios de fugir de suas consequências. Também passo por situações que me desarmam os braços e pior, o coração. Lembro-me das noites mal dormidas e dos dias angustiantes, vendo no relógio do celular os minutos passando, os livros acumulados, os exercícios das apostilas e o sentimento de impotência quando estudei para passar no vestibular da UnB.
Nessas andanças, no entanto, conheci o "Fernandão", nome carinhosamente designado pelos amigos que o admiravam não pela inteligência, mas pelo esforço.
De nome Fernando Henrique dos Santos e 24 anos de idade, Fernandão passou a maior parte de sua vida tendo que superar as dificuldades que, em suas próprias palavras, foram dons divinos.
Aos sete anos, na primeira série, apresentou dificuldades notáveis em seu ensino por causa de sua fala e foi encaminhado a um ensino especial aonde permaneceu por seis anos. Durante seu acompanhamento, aprendeu a ler aos 10 anos e aos 13 foi para a terceira série. Na quinta série conheceu a matéria ciências e se interessou pelo que se estudava nela e quando na sétima série, com seus 16 anos, conheceu a química, apaixonou-se e começou a querer fazer este curso na UnB.
Foram várias tentativas frustradas, porém não negativas, pois todos os resultados contrários que ele recebia, alimentavam seu espírito de criança e o faziam superar a dislexia e o déficit de atenção (THDA) e querer sempre fazer mais pelo seu sonho. Os remédios e exames receitados por profissionais** não fizeram milagre, apenas ajudaram-no em sua concentração e à base de palavras de incentivo e superação, neste ano de 2010, Fernando conseguiu passar no vestibular da UnB  e eu me emocionei ao telefone quando falei com ele parabenizando-o. Seu discurso não mudou: "eu passei na UnB, porém outras pessoas também podem passar. Eu não sou inteligente e sim esforçado, determinado e acredito no espírito de criança de crer que tudo é possivel".
Uma das últimas de sua vida, consta nos dias da realização da prova da UnB, quando as fiscais direcionadas para seu auxìlio na prova instigaram-no a desistir da UnB, alegando sua idade "avançada" e estimulando-o a fazer concurso, faculdade particular ou o PROUNI, "Mas gostei disso, Iasminny, porque busquei a energia que estava oculta. Ela despertou na hora certa".
Desde os 9 anos ele sonha em entrar para a polícia federal, com o curso de química pretende passar, então, no concurso de perito.
Não tenho dúvidas quanto à capacidade de cada um de nós de entender que sempre haverá um amanhã repleto de novidades e caminhadas em pedras, resta-nos acreditar que sim, tudo é possível. Superar os inumeráveis pesares de se estar vivo é tomar posse exatamente dessa arma que nos fortalece.
Aprender a lição do momento para superá-lo ou superar a situação para dela tirar o proveito necessário? Na verdade não importa a ordem, desde que se tenha no coração a coragem de ousar até onde nossos pés não foram e acreditar que é possível dar um passo a mais, quando achamos que já não podemos.

*Pragmatismo - Sistema filosófico que propõe a prática como critério de verdade.
**Não tome remédios sem prescrição médica e não se auto-medique. Em caso de suspeitas, procure um especialista.

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